Preservação não deve considerar apenas as árvores

Especialista analisa proposta da USP de criar reservas para preservar vegetação de cerrado

campo no cerrado

Como podemos avaliar o valor da vegetação urbana? Essa pergunta é respondida na legislação ambiental considerando um fator básico, o tamanho da planta, que geralmente corresponde a árvores. Se pensarmos somente nos serviços ambientais, essa linha de pensamento é correta. Afinal, quanto maior o porte, maiores os serviços ambientais. Entretanto, em um país megabiodiverso como o Brasil, esse pensamento é no mínimo perigoso.

São Paulo, assim como outras cidades brasileiras, herdou um vasto patrimônio de fauna e flora, de grande biodiversidade, onde originalmente milhares de espécies conviviam em complexas interações ecológicas em diferentes paisagens como a Mata Atlântica, campos-cerrados, capões de araucárias e várzeas. Passados quase 500 anos de colonização, pouco sobreviveu dessa natureza ancestral, principalmente aquelas formas de vida que não apresentavam a beleza óbvia de uma grande árvore ou o esplendor da floresta tropical.

Um caso emblemático são os campos nativos, tipo de cerrado que nomeou a metrópole nos seus primeiros tempos de São Paulo dos Campos de Piratininga. Formada em sua maioria por arbustos e ervas de diferentes espécies, essa rica vegetação de estatura baixa segue desconhecida da maioria, relegada ao título de “mato”. Entretanto, dentro do contexto ecológico e histórico, suas plantas podem ter o mesmo valor que uma figueira centenária. Exemplos são as espécies sobreviventes nos cerradinhos da Universidade de São Paulo (USP), como o murici-do-campo, fruta-de-pomba, língua-de-tucano e muitas outras, que já ocuparam extensas áreas do Município e hoje estão restritas a populações ínfimas.

Detentoras de genética resultante da evolução milenar com as condições locais, plantas assim não são substituíveis por árvores ou exemplares de mesma espécie de outras regiões, sendo formações únicas que devem ser preservadas a todo custo para essas e as futuras gerações. É urgente mudarmos a concepção de que somente árvores são passíveis de valoração ambiental, sob pena de prosseguirmos com a perda de inúmeros tesouros vegetais desconhecidos. No Brasil, a biodiversidade deve ser uma premissa fundamental para o licenciamento de obras e suas diretrizes ambientais.

A USP acerta quando promove a criação de reservas para os últimos testemunhos dos antigos Campos do Butantã, onde se assenta originalmente o seu câmpus. Tombados e abertos ao público, esses campos-cerrados poderão ser considerados museus vivos da história, cultura e botânica paulistanas.

destruição do cerrado

A vegetação do Bioma do Cerrado, considerado em seu “sensu lato”, não possui uma fisionomia única em toda a sua extensão. Muito ao contrário, ela é bastante diversificada, apresentando desde formas campestres bem abertas, como os campos limpos de cerrado, até formas relativamente densas, florestais, como os cerradões. Entre estes dois extremos fisionômicos, vamos encontrar toda uma gama de formas intermediárias, com fisionomia de savana, às vezes de carrasco, como os campos sujos, os campos cerrados, os cerrados “sensu stricto” (s.s.). Assim, na natureza o Bioma do Cerrado apresenta-se como um mosaico de formas fisionômicas, ora manifestando-se como campo sujo, ora como cerradão, ora como campo cerrado, ora como cerrado s.s. ou campo limpo.

Ricardo Cardim* – O Estado de S. Paulo

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About cerradania

Operário das letras, Comunicador e Idealizador da Cerradania, Palestrante,Professor. Letterman, Communicator and Idealizer of Cerradania, Speakers,Teacher.

One response to “Preservação não deve considerar apenas as árvores”

  1. Jose Arruda says :

    Diante do diversidade de biomas do cerrado. Temos que creditar valor no artigo publicado

    Curtir

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