Quiabo-da-lapa planta do cerrado que não frequenta a mesa do consumidor

Aqui pelos lados do cerrado mineiro, se a gente juntar tudo que choveu no finalzinho do ano passado com mais o tiquinho de água que desceu nesse começo de ano, quase que não dá pra encher uma caneca! Dei de ficar matutando como é que esse mundão de gente morando nos ajuntamentos das grandes cidades vai beber e comer… Muita gente acha que comida brota nas prateleiras dos supermercados. E, quando acaba, é só buscar lá no depósito que tudo se resolve. Será?
Quem vive de plantar, colher, beneficiar e depois vender, sabe que a coisa não é bem assim. Na lavouragem do dia a dia, somente um ou outro produtor rural tem água em quantidade pra tocar seu roçado e garantir alimentação pra essa tanteira de gente urbanoide. A maioria dos produtores depende do regime de chuvas, que anda bem descabeceado nesses últimos tempos.
quiabo da lapa
Sob essa perspectiva, a experimentação de novas plantas para compor o cardápio naturalmente tende a aumentar. Pensando nisso, lembrei-me de uma prosa antiga que travei com meu amigo Ademil, garimpeiro antigo, que em sua mocidade explorou, com força, ouro e diamante nas cabeceiras do Jequitinhonha. De acordo com ele, “naquele tempo, dificuldade é que num faltava, pois as distâncias demasiadas e o transporte só se dava a pé ou em lombo de animal. Pra gente comer, cada qual se virava como podia e, muitas das vezes, a solução era procurar por ali mermo qualquer coisa que desse pra gente tapar o buraco da barriga. E olha que trabalho de garimpo é serviço bruto e, quando dava a volta do dia, a fome montava medonha!”.
Curioso, perguntei-lhe por um exemplo de coisa diferente usada por eles na alimentação e a resposta veio rápida: “Nessas serras, o quiabo-da-lapa (Cipocereus minensis) dá por todo lado e aquilo é gostoso demais. O cozinheiro é que penava pra despelar toda aquela espinharia, pois primeiro tinha de sapecar ele no fogo, segurando com cuidado pra não espetá a mão e, em seguida, raspava a casca com uma faca até desfazer a espinhada. Daí, era só o tempo do toicinho chiar na panela pra gente refogar ele já picadinho. Com angu forrando prato e o quiabo-da-lapa meio babento, derramado por riba, hummm, é uma delícia”.
Como essa planta, existem centenas de espécies vegetais com grande potencial alimentício e que não frequentam a mesa do consumidor, principalmente por falta de informação. O recente lançamento do livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais no Brasil”, da Editora Plantarum, tenta resolver essa limitação. Com belas imagens, são descritas mais de 300 novas possibilidades alimentares, assim como o quiabo-da-lapa, sempre acompanhadas por três receitas já experimentadas. Para quem gosta de se aventurar na cozinha, essa publicação é uma viagem sem volta a novos sabores.
Bom apetite e até a próxima lua!
reportagem de Marcos Guião – redacao@revistaecologico.com.br

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Operário das letras, Comunicador e Idealizador da Cerradania, Palestrante,Professor. Letterman, Communicator and Idealizer of Cerradania, Speakers,Teacher.

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