Lobo-Lobô , goma do sertão do cerrado

A utilização do Lobo-lobo-maior, também conhecido como Quilombo, nas comunidades do Alto do Vale do Jequitinhonha, teve início com o ciclo do ouro e diamante na região de Diamantina. O garimpo como atividade principal da época, aproveitava-se dos escravos para garantir êxito da empreita e essa mão de obra barata era alimentada principalmente com os recursos naturais locais. E é aí que entraram para a cozinha ingredientes encontrados com fartura na região para dar sustança aos trabalhadores. Acredito que um dos principais pratos seria o angu, que contracenava com o Ora-pró-nobis, os brotos de Samambaia, o Quiabo-da-lapa e também o Lobo-lobô. Este último tem nome meio afrancesado e penso que alguns dos naturalistas que passaram por aqui, como Saint Hilaire, talvez tenham influenciado na adoção deste nome.
As populações tradicionais, principalmente as comunidades negras, utilizaram e ainda utilizam o Lobo-lobô na culinária quando a demanda é “engrossar o caldo”, seja do feijão, da sopa rala ou do frango ao molho pardo. Adicionado quando o prato está no estágio final de preparação, rapidamente ele mostra sua
capacidade de dar maior consistência a água do cozimento, agindo de maneira muito semelhante a famosa “Maizena”. Este recurso ainda é usado por algumas cozinheiras da região e tem gente que vem de longe só para saborear um “Frango ao Molho Pardo com Lobo-lobô”.
Desde o ano de 2010 tenho participado ativamente de uma iniciativa de produção de incensos naturais a partir dos recursos vegetais dessa região. Uma das primeiras demandas foi a de conseguir identificar uma planta que promovesse a aglutinação dos muitos pós que formam a massa, mas esta planta não poderia interferir no aroma e nem na queima completa da vareta. A lembrança do Lobo-lobô foi imediata. Ele é atóxico, medra em profusão no alto da Serra do Espinhaço, além de regenerar facilmente quando submetido a uma poda drástica. Depois de alguns experimentos para determinar a quantidade a ser utilizada, não tivemos mais dúvida de que ele faria parte da fórmula básica da massa dos incensos.
O ritual de sua coleta e preparo é simples. Basta dar uma chegada ali na serra com um facão afiado, cortar alguns de seus longos e finos galhos, raspando e desprezando a casca de fora, que é bem fina e seca. A entrecasca verdinha que fica logo abaixo se solta facilmente da madeira quando machucada e é ela que vai para o sol até ficar bem sequinha. Em seguida são levadas ao pilão para tomar um bocado de pancada, se transformando num pó bem fino, que deve ser guardado num pote hermeticamente fechado. Daí tá pronto. Pode-se usá-lo no dia a dia da cozinha ou no preparo da massa de seu incenso. Como é que se faz incenso? Ah, isso é uma prosa longa, que na próxima lua cheia conto para vocês. Inté!

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Operário das letras, Comunicador e Idealizador da Cerradania, Palestrante,Professor. Letterman, Communicator and Idealizer of Cerradania, Speakers,Teacher.

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