AÇUCAR DE RAIZ

Era começo de tarde, avistar a casa de chico em meio ao capão de mata ao lado do riacho trouxe alívio e certeza de que o oco no estômago seria logo tapado. Devido ao adiantado da hora, o almoço teve sabor ajantarado, deixando um rastro de preguiça gostosa, que acabou por me levar à espaçosa varanda rodeada de árvores em busca de um canto para merecido cochilo. esparramado, chico, na rede já sem as botinas caçando o frescor da tarde, mas este sossego não dilatou muito, pois logo deu de alguém bater palmas em busca dos remédios e conselhos dispensados de maneira generosa pelo anfitrião.
Uma moçoila nomeada Jerusa, tava de reclames de perebas e espinhas muitas, que explodiam em seu corpo roliço de adolescente. Aborrecida, ela mostrava as cicatrizes e as pequenas pústulas espalhadas principalmente no rosto, nas costas e no peito. Chico ouviu tudo pacientemente e depois de listar alguns alimentos “remosos” a serem evitados, pediu e ela para voltar daí a três dias, tempo de preparo do “Açúcar de Raiz”. Fiquei por ali oferecido, procurando acompanhar os ditames de tão refinado remédio, demorado mais de dia prá se achar acabado.
Chico deu ponto de dar início ao trabalho imediatamente e daí me grudei, sem larga nenhuma. Depois de consultar seu estoque de plantas, ele colocou em riba da mesa vários potes, sacos e amarrados, dando começo pelas cascas do Mulungu, seguida das folhas de Bobenta, entrecascas de Mangaba, raiz de Carobinha, Canela de Perdiz, Algodãozinho do Campo, finalizando com a raiz do Inharé cheiroso.
__Tem de ponhá sempre pranta em número ímpar, tendeu? Ele me perguntou enquanto conferia cada uma delas já bem picadas e secas, tudo muito bem arrumado. Uma a uma foram medidas de maneira uniforme e depois colocadas de molho na água, deixando de um dia para outro. Aquilo tava me parecendo um encanto, mas com as franjas do horizonte já tingidas de fogo, demos por encerrado o dia de trabalho.
Dia seguinte bem cedo, enquanto eu levava para ferver todas as plantas num tacho com água, ele saiu em busca de uma rapadura na casa de cumpadre Leocádio, distante pouco menos de uma légua. De volta, Chico foi raspando a tal, dando-lhe jeito de farofa. Com a atenção no tacho, passei o cozido num pano fino e medi o apurado. Voltamos essa calda para o tacho, juntando a mesma quantidade da farofa de rapadura, formando um melado, que ficou no fogo até chegar no ponto de doce seco. A partir desse ponto, batemos por uns cinco minutos, descansamos outros cinco, seguindo nessa lida até o açúcar voltar a se formar no tacho. Finalmente tava pronto o remédio!
__Deu trabaio, mas Jerusa há de se curá daquelas feiúras.
Concordei com tudo enquanto anotava os procedimentos, que agora passo prá frente. Inté a próxima lua!

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Operário das letras, Comunicador e Idealizador da Cerradania, Palestrante,Professor. Letterman, Communicator and Idealizer of Cerradania, Speakers,Teacher.

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