Tesouro na rota do garimpo no cerrado mineiro

Em Minas Gerais, região de Diamantina, preserva cachoeiras, lapas, pinturas rupestres e o histórico Caminho dos Escravos. Experimente!

pintura rupestre.jpg  Pinturas rupestres preservadas no sítio de interesse arqueológico, localizados em abrigos sob rocha e a céu aberto – Foto: Luiz Antônio Fontes.
Pinturas rupestres preservadas também se destacam no parque,que tem sítio de interesse arqueológico, localizados em abrigos sob rocha e a céu aberto – Foto: Luiz Antônio Fontes
Biribiri, na língua indígena, significa “buraco grande”. É, também, o nome de um antigo vilarejo surgido no fim do século XIX, quando nele se instalou uma das mais antigas tecelagens de Minas Gerais, e ainda dá nome a um parque estadual, criado em setembro de 1998 e administrado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF). O lugar é Diamantina, terra de garimpeiros, dos buscadores de diamantes e de sonhos, tropeiros e aventureiros que percorriam aEstrada Real e por lá ficaram, inebriados com a riqueza natural e mineral e também com a magia das cachoeiras.
O Parque Estadual do Biribiri também pertence àReserva da Biosfera do Espinhaço, o que significa que seu ecossistema foi reconhecido pela UNESCO pela importância para a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável. Nele, a história tratou de deixar registros que até hoje perduram, como o Caminho dos Escravos, trilha de 19 quilômetros (saindo do Mercado Velho em Diamantina), construída no século XVIII e que vai até Mendanha, distrito que tinha um dos maiores serviços de extração de diamantes da região. Ao longo dos anos, muitas pedras foram retiradas do caminho por pessoas da região, em busca de tesouros enterrados.
Acorrentados, os escravos quebraram e carregaram enormes lajes de pedra, com as quais esculpiram o caminho que margeia rios, nascentes, cachoeiras e muitas lapas. A trilha tem relevância histórica e foi usada como rota de contrabandistas de diamantes e por mercadores de alimentos. As tropas que ali passavam eram obrigadas a pagar pedágio para atravessar o Rio Jequitinhonha, hoje assoreado, um aperto que sobe ao coração e turva a visão de quem teima imaginá-lo caudaloso, navegável e imponente.
A Revista ECOLÓGICO percorreu um trecho do Caminho dos Escravos ao lado do biólogo e gerente do parque, Gabriel Ávila, que foi descortinando as belezas explícitas e algumas escondidas daquele santuário de Cerrado e Campos Rupestres; e as lendas que, passadas de geração a geração, ainda dão vida à trilha.
Quem percorre o trecho no sentido Diamantina-Mendanha encontra quatro cruzeiros, cada qual com sua história. O primeiro, explica Gabriel, é o “Graças a Deus”, exclamação dos peregrinos que conseguiam vencer uma subida íngreme e exaustiva e ainda sobreviverem ilesos às tocaias. O segundo foi cravado no lugar em que morreu uma grávida, cujo parto se complicou. Ela foi carregada por quilômetros em uma padiola improvisada feita de troncos e lençol e não resistiu às dores. O terceiro cruzeiro está fincado no local em que o garimpeiro Mané Gabriel foi alvejado em uma tocaia, quando levava diamantes para o Arraial do Tijuco(antigo nome da cidade de Diamantina). E o quarto, o maior deles, no local onde ele tombou morto, depois de se arrastar ferido e tentar ajuda.

PESO DA HISTÓRIA
Ao longo desse trajeto, a beleza da natureza inquieta, assim como o peso da história escrita sobre o ciclo dos diamantes, que gerou riqueza, cobiça, morte e destruição da natureza. O Córrego do Palmital corre límpido e se ouve o som das cachoeiras do Limoeiro e Cachoeirão, que escondem poços transparentes e gelados, além de uma beleza quase intocada. Árvores frondosas, como o pau-d’óleo (copaíba) e sucupira branca, conhecida na região como monjolo, se impõem.
No caminho até o balneário, mimetizado entre as rochas, uma surpresa: um mocó (Kerodon rupestris) mamífero roedor, sentinela da entrada do parque. “Arisco, ele tenta se safar dos caçadores que cobiçam os poderes afrodisíacos de sua carne”, comenta Gabriel, ao lembrar que os guarda-parques de hoje foram, em sua maioria, caçadores e garimpeiros no passado. “Hoje, são aliados que sabem reconhecer, pela simples postura, um possível agressor da natureza. Mas é com diplomacia, diálogo e conscientização ambiental que vamos mudando, aos poucos, as atitudes não preservacionistas.”
Logo depois se descortina a Cachoeira Sentinela, quase um cartão-postal de Diamantina, de águas tão puras que se pode beber. Parada obrigatória para se refrescar nas águas menos geladas que as outras. E a 2,5 quilômetros da Vila de Biribiri, está a Cachoeira dos Cristais, cujo acesso por carro é fechado durante a semana. “Dizem os antigos que a cachoeira foi mudada de lugar a fogo e água pelos garimpeiros, que exploraram o metal precioso de seu solo. Eles esquentavam a rocha e jogavam água fria, fragmentando-a através do choque térmico”, relembra Gabriel.
PINTURAS PROTEGIDAS
Mas o parque reserva ainda outras surpresas, como as pinturas rupestres, preservadas por sua localização protegida do Sol e da chuva, e as lapas, sendo as principais as de Henriqueta e Mané Salu. Estudo feito pelos arqueólogos Alenice Baeta e Henrique Pilló, sobre a cultura pré e pós-histórica, catalogou 32 sítios de interesse arqueológico, localizados em abrigos sob rocha e a céu aberto.
Ali foram encontrados testemunhos pré-coloniais, sobretudo figurações rupestres, e também alguns vestígios, como instrumentos líticos, quebra-cocos em blocos fixos, além de possíveis restos de estruturas de combustão. Esses abrigos foram ocupados a partir do século XVII por garimpeiros, quilombolas, tropeiros ou mesmo catadores de sempre-vivas, informa o estudo.
A caminhada revela ainda que todas as nascentes do parque são tributárias da Bacia do Jequitinhonha, que faz divisa com sua porção nordeste. Os afloramentos rochosos que delineiam e esculpem a área e a paisagem de Diamantina são de quartzito. “O deslocamento das placas tectônicas fez aflorar o magma, que solidificou e, posteriormente, foi modificado pela ação da chuva e do vento”, pontua o gerente.
Até onde o olhar alcança pode se ver a ocorrência de diversas espécies de sempre-vivas, orquídeas e bromélias e espécies ameaçadas, como o cactus (Discocactus placentiformis), chuveirinho (Actinocephalus), droseras (plantas carnívoras) e outras nem tão ameaçadas, mas inusitadas, como o cactus-coroa-de-frade, carinhosamente conhecido como “travesseiro de sogra”. É espinho que não acaba mais.
Edmar das Graças Costa, de 46 anos, nascido e criado na Vila de Biribiri, caçador no passado, hoje protege o parque. Aos nove anos, já cozinhava para o pai e, mais tarde, foi funcionário da tecelagem. “Naquela época, criança podia trabalhar. Não é como hoje, não”, provoca.
Com sua fala mansa, vai enumerando uma infinidade de plantas medicinais do Cerrado ali encontradas e preservadas. “Aqui tem douradinha-do-campo, também conhecida com dom Bernardo ou bate-caixa. O chá de suas folhas alivia a dor no corpo. Tem, ainda a pustemeira (Pfaffia spicata) que é anti-inflamatória; a raiz de mangaba, depurativa; e o carapiá (Dorstenia brasiliensis), para distúrbios menstruais. Isso sem falar nos cinco tipos de arnica e no barbatimão, cuja casca tem poderes cicatrizantes e anti-inflamatórios. O povo aqui usa muito o sabonete-de-soldado (Sapindus saponaria L.), que cura gripe”.
Gabriel entra na conversa e mostra um tipo de cactus, conhecido como quiabo-da-lapa, cuja frutinha é usada na culinária local, em pratos típicos, ao lado do ora-pro-nóbis e frutas, como cagaita, araticum, pequi e gabiroba.
No Parque do Biriribi também tem gambá, onça-parda, lobo-guará, jandaia-da-testa-vermelha, codorna-mineira, capacetinho-do-oco-do-pau, pica-pau-da-cabeça-amarela e carcará, a águia do Cerrado. Riquezas que estão sendo preservadas através da persistência e jogo de cintura da equipe do IEF, que zela pela sobrevivência desse ecossistema, tão exuberante e mágico, quanto ameaçado.
FIQUE POR DENTRO
Área do parque: 16.998 hectares
Onde: no município de Diamantina
Distância: 290 quilômetros de Belo Horizonte
Acesso: BR-040 (sentido Brasília), passando por Sete Lagoas e Paraopeba. Depois desta última cidade, aproximadamente cerca de 40 quilômetros, entrar no trevo para Curvelo e, em seguida, pegar a BR-135. Depois de Curvelo, a viagem prossegue pela BR- 259 até Diamantina.
Clima: tropical, com temperatura média anual de 19 graus.
baseado na reportagem de Ana Elizabeth Diniz

baseado na reportagem do                                                              http://www.revistaecologico.com.br

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