Representação social das frutas do cerrado

 

Frutas, doces, bolos e tantos outros alimentos guardam na vida social expressões simbólicas, traduzindo   sentimentos   sejam   de   alegria ou   mágoa, ou   expressando congratulações em ocasiões vividas pelo grupo familiar ou de amizade (CASCUDO, 2004). Uma citação se destaca em “Grande Sertão: ”, Guimarães Rosa pontuava e descrevia a relevância da fruta como suprimento: “Assim que a matlotagem desmereceu em acabar, mesmo fome não curtimos, por um bem: se caçou boi. A mais, ainda tinha araticum maduro no cerrado” (GUIMARÃES ROSA, 1994, p. 527).   Um marca social característica do Brasil Central  e  do  Sul  de  Minas Gerais  nas  regiões  de  cerrados guardam lembrança de cavaleiros que durante a Semana Santa – época da fruta madura – levavam  balaios  carregados de  marolo  que  eram  vendidos  em  ruas  e  em  praças.  Da fruta, se fazem geléias, sorvetes, doces, compotas, vinhos e licores.

frutasDestaque para o município de Paraguaçu (MG), onde o marolo é considerado  símbolo  e patrimônio  cultural  e  seus  habitantes  são  carinhosamente  chamados  de  “maroleiros”: O  “trabalhar  com  o marolo” segue tradição familiar e os conhecimentos são passados de geração a geração, com   toda   a   família   envolvida   da   colheita   até   a   comercialização   dos   produtos.

Resgatamos  a  história  e  o  valor  cultural  do  marolo, como  ele  é  resignificado  pelas pessoas  como  patrimônio  da  cidade,  e  ao  mesmo  tempo seu  caráter  socioeconômico para  famílias  de  baixa  renda.

Além da criação do bloco carnavalesco “Marolo”, anualmente acontecem eventos, como festivais musicais, feiras gastronômicas, mostras culturais, prêmios escolares de poesia, redação e teatro, todos no tema Marolo.  Nessa região, a fruta representa tradição, identidade e patrimônio cultural, faz interface com a religião na época da safra, renova sociabilidade na comercialização das frutas, e contribui para a manutenção do cerrado.

Guimarães transmite em oferendas diversos trechos dos valores das frutas do cerrado: “Pois, várias viagens, ele veio ao Curralinho, vender bois e mais outros negócios – e trazia para mim caixetas de doce de buriti ou de araticúm, requeijão e marmeladas.” Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, pg. 115.

“O quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se bebia estável. Assim que a matlotagem desmereceu em acabar, mesmo fome não curtimos, por um bem: se caçou boi. A mais, ainda tinha araticúm maduro no cerrado.” Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, pg. 372.

O buriti é uma espécie abundante no Cerrado e um indicativo infalível da existência de água na região. Como o Cerrado é rico em água, lá estão os buritis, emoldurando as veredas, riachos e cachoeiras, inseridos nos brejos e nascentes. A relação com a água não é à toa. Ao caírem nos riachos, os frutos de seus generosos cachos são transportados pela água, ajudando a dispersar a espécie em toda a região. Os frutos também servem de alimento para cutias, capivaras, antas e araras, que colaboram para disseminar as sementes.Embelezam a paisagem do Cerrado e são fonte de inspiração para a literatura, a poesia, a música e as artes visuais. Consumido tradicionalmente ao natural, seu fruto também pode ser transformado em doces, sucos, licores e sobremesas de paladar peculiares.

Imortalizada na obra de Guimarães Rosa, a pêra-do-campo, conhecida também como cabacinha-do-campo, é uma fruta grande (variando entre 60g e 90g), com casca fina e polpa suculenta de sabor doce azedinho, muito característico. Sua árvore é, na verdade, um arbusto que varia entre 0,5m e 1,5m de altura, e frutifica no verão, a partir de outubro. É normalmente consumida in natura, em geléias ou na célebre “limonada de pêra-do-campo”. Pode ser plantada em vaso e é essencial em projetos de recuperação do cerrado.

São diversas opções, Murici (Byrsonima crassifólia), Bacupari-do-Cerrado (Salacia elliptica), Cagaita (Eugenia dysenterica), Mama-cadela (Brosimum gaudichaudii), Pequi (Caryocar brasiliense), Baru (Dipteryx alata), Cereja-do-cerrado (Eugenia calycina), Mangaba (Hancornia speciosa), entre outras.

Na natureza – cerrado – tudo funciona na base da cooperação mútua, as frutas são de fundamental importância nesta cadeia de integração.

Baseao no Livro Frutas Brasileiras e Exóticas Cultivadas (Harri Lorenzi, Luis Bacher, Marco Lacerda e Sergio Sartori) e trecho do livro CERRADANIA: alumeia e óia pros encantamentos dos cerratenses (FMB).

About cerradania

Operário das letras, Comunicador e Idealizador da Cerradania, Palestrante,Professor. Letterman, Communicator and Idealizer of Cerradania, Speakers,Teacher.

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