Chapada das Mesas nos cafundós do Maranhão

No fim da tarde, um bando de andorinhas desenha uma coreografia no céu avermelhado, antes de “perfurar” 26 m de queda-d’água. Por incrível que pareça, é atrás de um volume torrencial de água que elas dormem. Antes de o sol raiar, as aves fazem o caminho inverso: saem detrás do véu da cachoeira em debandada para buscar comida na vegetação quase intacta do cerrado.
Portal da Chapada das Mesas

Foto de divulgação=chapada das mesas

Esse é um dos muitos cenários insólitos da chapada. Que fique claro: não se trata de Diamantina (Bahia), Veadeiros (Goiás) ou Guimarães (Mato Grosso), cada uma com sua beleza peculiar. A chapada da vez é a das Mesas, no extremo sul do Maranhão, quase na divisa com o Estado de Tocantins, que ainda preserva trilhas aquáticas pouco navegadas por ecoturistas e aventureiros.

O barulho da água é ensurdecedor. Apoiando-se em pedras escorregadias, o visitante entra por detrás da cachoeira com cerca de 50 m de extensão.

Entre uma chuveirada leve e outra brutal, chega-se a uma espécie de “sala” de aproximadamente três metros de largura, esculpida na rocha molhada. Por onde a luz solar entra, arco-íris se formam no paredão. A corredeira é tão forte que, ao contrário das andorinhas, a vista humana não consegue transpô-la.

A imagem é recorrente: rios cristalinos e nascentes correm por entre vales e despencam em poderosas e exuberantes cachoeiras, muitas (como a de São Romão) de difícil acesso –não raro, é necessário percorrer por horas estradas de terra e de areia, cortando trilhas no meio do mato. Para quem se amarra em natureza, uma aventura e tanto.

O ponto de partida para explorar a chapada das Mesas é a bucólica cidadezinha de Carolina, fundada na metade do século 19, que ainda preserva alguns belos casarões coloniais. De Carolina até a queda de São Romão, por exemplo, são 86 km pelo cerrado.

Não desanime. Entre um solavanco e outro na camionete, pausa para avistar um casal de araras-vermelhas cortando o azul do céu, emas e outras aves. Ou uma casinha de sapé, onde uma família simples resiste contra o tempo sem energia elétrica, no meio da vegetação de árvores baixas e retorcidas.

Aquário natural O mesmo rio Farinha que acolhe as andorinhas na São Romão cria, 16 km abaixo, outra cachoeira, a Prata, formada por um conjunto de três quedas-d’água, cada uma com 25 m.

Dona de curiosas formações rochosas, a chapada das Mesas tem ar de ruínas. Pedras formaram esculturas de diferentes tamanhos e formatos que de fato lembram mesas, como o morro do Chapéu, com 378 m de altitude.

Nessa chapada, vale a máxima “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. É a lei da natureza, generosa com seus recursos. Há cachoeiras para todos os gostos: cobertas por matas, abertas e exuberantes, finas, mas profundas, gêmeas e solitárias como imensas fendas cravadas em cânions, explica o guia João Ribeiro da Silva Filho, 34, acostumado a desbravar os encantos do cerrado desde moleque.

A apenas 35 km do centro de Carolina, estão outras duas grandes corredeiras: Pedra Caída e Pedra Furada.

Após uma trilha de 2 km, encare mais 36 degraus até chegar ao rio Brejão. À primeira vista, a largura do leito, de cerca de 2 m, pode desapontar os mais ansiosos.

Que ninguém tenha pressa. Do outro lado da margem, a cachoeira do Paredão, de 26 m, ajuda a tirar o excesso de suor. Energia renovada, siga à direita, por dentro do rio. Menos de cem metros e a formação de um cânion coberto por mata ciliar e o barulhinho de água jorrando indicam a proximidade da Pedra Furada –com 43 m de altura, tem esse nome porque a correnteza furou de fato a rocha, criando uma fenda na pedra.

Cerca de 2 km dali está outra queda, a Pedra Caída, também conhecida entre os nativos como Santuário. Haja fôlego.

Primeiro para encarar 120 degraus cânion abaixo até se deparar com três “chuveiradas” escorrendo pelos 56 m de paredão. Caminhando ora sobre areia avermelhada, ora dentro do rio, termina-se de cara com uma cachoeira de 46 m de altura, que desemboca num funil de pedra às avessas. A pressão é tão grande que forma ondas.

Tente chegar lá entre 12h30 e 13h15. Uma faixa de sol entra pelo alto do cânion, iluminando a Santuário. Difícil tirar essa imagem da memória.

Talvez ela só perca para o azul deslumbrante do poço Encantado. A viagem é exaustiva. São 105 km de Carolina até o município de Riachão, mais 28 km por estrada de terra. Não dá para imaginar que no meio de um tapetão verde a perder de vista fica um cânion, todo forrado por vegetação nativa.

Apoiando-se em árvores, cipós e raízes, o visitante desce por uma trilha com cerca de 120 m para chegar às margens de um córrego de água límpida. Caminhe um pouco mais dentro da água e, em menos de dez minutos, a visão de um poço azul, rodeado por paredões de arenito, com nascentes ao redor, está lá, intacta. De máscara e snorkel, avistam-se cardumes de peixes deslizando incólumes nesse aquário natural. Ali, ao cair da tarde, fica fácil entender a origem do apelido “paraíso das águas”.

reportagem de ROBERTO DE OLIVEIRA da Revista da Folha

About cerradania

Operário das letras, Comunicador e Idealizador da Cerradania, Palestrante,Professor. Letterman, Communicator and Idealizer of Cerradania, Speakers,Teacher.

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