Flores raras do Cerrado na Serra do Cipó de Minas Gerais

Quem muita sorte tiver e pelas montanhas de Minas se aventurar, pode encontrar por esses dias o buquê da foto do alto desta página ao vivo e em alguns dos mais intensos tons de rosa e lilás que a natureza é capaz de inventar. De tão rara, a espécie não tem nome popular. Pouca gente teve o privilégio de vê-la. Batizada por botânicos de Lavoisiera sampaioana, ela integra um pequeno guia que reúne algumas das maiores joias da flora do Brasil. Ao todo, são 82 espécies. Lançado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o livro de bolso tem como meta motivar e ajudar a população encontrar algumas dessas plantas e, assim, contribuir para sua preservação.

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Lavoisieira sampaioana  uma das mais belas e raras flores do Cerrado – Divulgação/Ernesto Lemes

O Cerrado é uma das 35 regiões com maior diversidade biológica da Terra. E o Cerrado mineiro é o mais devastado de todos. Séculos de pecuária, mineração, plantações e ocupação mudaram a face de campos e montanhas. Isso quando não levaram montanhas inteiras. O resultado são índices espantosos de extinção. Das 2.113 espécies da flora brasileira ameaçada de extinção, 700 são do Cerrado.

CAMPOS ALTOS DE MUITOS SEGREDOS

A Lavoisiera sampaioana, por exemplo, sequer integra a lista da extinção. Sua situação é desconhecida porque há muitos anos praticamente ninguém a encontra no único lugar do planeta em que existe: os campos de altitude do Cerrado mineiro, nas vizinhanças dos municípios de Ouro Preto, Jaboticatubas, Santa Luzia, Santana do Riacho e Santo Antônio do Itambé. Fotografadas para integrar o guia de bolso, as flores estão entre as últimas da espécie. Tudo sobre elas é incerto. Sabe-se apenas que desabrocham em campos acima dos 1.300 metros de altitude, de aparência selvagem, com vegetação rasteira e muitas, muitas pedras.

Essas plantas são arbustos que não costumam ultrapassar o metro e meio de altura. Fora da época de floração, que se prolonga até agosto, passam despercebidas com facilidade, quase da cor das rochas das montanhas. Talvez por isso, especulam pesquisadores, a bela espécie não seja avistada. Sua história pode ser também a de tantas outras espécies que já desapareceram ou correm o risco de extinção iminente. Alterações do hábitat podem tê-las condenado, numa região escolhida para estudo pela imensa riqueza e a igualmente grande fragilidade.

O guia integra um projeto maior de Planos de Ação Nacional (PAN) para a Conservação da Flora Ameaçada de Extinção, coordenado pelo Jardim Botânico, com a participação de numerosas instituições científicas, comunidades e representantes dos setores produtivos. A partir de uma espécie de planta, pode-se preservar todo um ecossistema. O que inclui proteger e recuperar nascentes e solos, flora e fauna.

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Lychnophora humillima – foto de William Milliken 

— Na natureza tudo está integrado. Não se salva uma planta se não se preserva o seu habitat — destaca o coordenador do Centro Nacional de Conservação da Flora, Gustavo Martinelli.

E, ao proteger esse habitat, se conserva um ambiente importante para a própria presença humana, que depende da água, do solo e dos serviços ambientais prestados pela flora e a fauna, como a diversidade de sementes e a polinização de espécies de valor comercial.

— Escolhemos para estudo regiões que não só possuem importância biológica, como são factíveis de salvar e de beneficiar a população de entorno — acrescenta Martinelli.

Cada PAN é resultado da combinação de pesquisa de ponta em campo e em bancos de dados no Brasil e no mundo. E também de reuniões de especialistas com representantes de governos, da mineração, da agropecuária, de moradores, pequenos produtores e quaisquer outros grupos que tenham relação com as áreas. Junto com o guia “Flora ameaçada do Cerrado mineiro”, o Jardim Botânico lançou também os PANs do Espinhaço Meridional e da região de Grão Mogol-Francisco Sá, ambos no Cerrado de Minas Gerais. Só no Espinhaço Meridional há 255 espécies de plantas em extinção. No Grão Mogol, existem 74.

— A função do PAN é orientar todos os envolvidos com essas áreas. Pode ser usado, por exemplo, para um agricultor averbar uma reserva legal para fazer o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Também é útil para o Ministério Público — observa Eline.
REFÚGIO NA SERRA DO CIPÓ

A análise dos locais prioritários foi realizada por uma equipe de especialistas liderada por Rafael Loyola, da Universidade Federal de Goiás, que também organizou os dois PANs.

Todos esses cientistas esperam que alguém se depare e dê notícias sobre, por exemplo, as flores exuberantes da foto ao lado. Como a Lavoisiera, essa espécie também não recebeu nome popular. Para os botânicos, a espécie é a Lychnophora humillima. É outra reservada hoje aos olhos de poucos. Está na categoria “criticamente ameaçada”. Só existe na Serra do Cipó e, ainda assim, somente perto dos municípios de Santana do Riacho e de Santana de Pirapama. Outrora, podia ser achada até mesmo sobre cupinzeiros. Hoje, não mais.

A Serra do Cipó, de fato, é um dos maiores refúgios da biodiversidade do Cerrado. Espécies que já desapareceram de outras áreas ainda são encontradas por lá. A esperança dos cientistas é que alguém encontre exemplares. No guia, há instruções de como proceder, caso alguém seja afortunado o suficiente para se deparar com uma das plantas mais raras do mundo.

O guia e os dois PANs podem ser acessados gratuitamente no site.

Vem ai: A Expedição Cerradania

 

About cerradania

Operário das letras, Comunicador e Idealizador da Cerradania, Palestrante,Professor. Letterman, Communicator and Idealizer of Cerradania, Speakers,Teacher.

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