Após 40 anos, avistam o mutum-pinima

After 40 years, the mutum-pinima is finally found
It inhabits the existing forests near the rivers, preferring to cut in its margins very early (in the morning) and at dusk.
In addition to eating wild fruits, leaves and sprouts, they hunt grasshoppers, tree frogs, lizards and spiders.
In the reproductive age, the male offers feeds to the female and, after forming, the pair no longer separates. The female puts 2 to 5 eggs.

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Mutum-pinima. Foto: Emanuel Barreto.

Um pouco sobre esta ave: Nome vulgar: Mutum pinima Classe: Aves Ordem: Galliformes Família: Cracidae Nome científico: Crax fasciolata Nome inglês: Bare faced curassaw Distribuição: Brasil (Paraná, Norte do Maranhão, leste e sul de Goiás, Oeste de Minas Gerais e Panamá) Habitat: Zonas tropicais Longevidade: 40 anos Hábitos: São monógamos. O macho dá comida à fêmea Maturidade: 2 anos Época reprodutiva: Setembro a Janeiro Incubação: 33 dias Nº de filhotes: 2 a 4 Alimentação na natureza Predominantemente frugívoros; sementes e restos vegetais, folhas e brotinhos Alimentação em cativeiro Ração, agrião picado, carne moída, cenoura ralada, milho inteiro. Habita as florestas existentes próximas aos rios, preferindo ciscar em suas margens bem cedinho (pela manhã) e ao entardecer. Além de comer frutas silvestres, folhas e brotos, caçam gafanhotos, pererecas, lagartos e aranhas. Na época reprodutiva, o macho oferece alimenta à fêmea e, após formado, o casal não mais se separa. A fêmea põe 2 a 5 ovos. Apesar de logo ao nascer serem capazes de andar, os pintos ficam sob a guarda da fêmea por até quatro meses. Normalmente, dormem empoleirados no tronco das árvores.

A expedição. Era o último dia de expedição que se iniciara no começo de novembro. A equipe de pesquisadores, guiadas pelos índios Pirahu, já estava sem grandes esperanças de encontrar a ave não avistada nos últimos 40 anos, mas as pistas fornecidas pelos indígenas eram boas. A equipe acordou as 3:30h da manhã. O índio mantinha acesa a esperança, pois a todo momento garantia que o Mytunxî — como é chamado o Crax fasciolata pinima na língua Tupi –, seria encontrado. E ele tinha razão. Ainda muito escuro, a equipe desceu vagarosamente o leito parcialmente seco de um igarapé. Era necessário caminhar em silêncio, pisando macio, para não espantar os animais. Por volta das 5h, o cacique nos alertou: “Olha o mutum, olha o mutum!”. A equipe logo se posicionou munida de binóculos, máquinas fotográficas e gravadores para documentar a espécie. Porém, era um alarme falso, tratava-se do mutum-cavalo, ainda comum na região.

O registro que queríamos ocorreu algumas horas depois do primeiro alarme falso. Estávamos exaustos.

Dias antes, no aeroporto Juscelino Kubitscheck, em Brasília, a nossa equipe formada pelos analistas ambientais do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestre (ICMBio/CEMAVE), Diego Mendes e Emanuel Barreto, e os biólogos Cesar Medolago, da UFSCar, e Flávio Ubaid, da UEMA, embarcou numa expedição científica para tentar encontrar o uma das aves mais raras e ameaçadas do Brasil: o lendário mutum-pinima (Crax fasciolata pinima).

Essa aventura estava planejada há tempos pelo analista Diego Mendes e pelo professor Luís Fábio Silveira, curador da seção de aves do Museu de Zoologia da USP e só se concretizou com a parceria da equipe de servidores da Reserva Biológica do Gurupi, administrada pelo ICMBio, e com o apoio do Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA).

De Brasília, o voo seguiu para Imperatriz, no Maranhão, onde a este grupo se somou o professor Carlos Martinez, da Universidade Federal do Maranhão, e dali nós seguimos para Açailândia, onde está localizado o escritório da Reserva do Gurupi.

Descrito como subespécie do mutum-de-penacho(Crax fasciolata) no final do século XIX, o mutum-pinima é endêmico do Centro de Endemismo Belém, região localizada a leste do rio Tocantins, abrangendo o nordeste do Pará e a Amazônia Maranhense, rica em biodiversidade. Estudos genéticos e morfológicos, ainda em andamento, conduzidos pelas equipes dos Profs. Luís Fábio Silveira e Mercival Francisco, da UFSCar, indicam que este mutum deva ser reconhecido como uma espécie plena, completamente distinta de Crax fasciolata. Este mutum é considerado um dos cracídeos mais ameaçados do mundo e não era registrado pela ciência há cerca de 40 anos. Seus últimos registros documentados datam do final da década de 1970. Desde então, vários ornitólogos empreenderam buscas em sua área de ocorrência com o objetivo de encontrar uma população remanescente na natureza e todas as expedições falharam em registrar esta ave.

Preparação

Antes da partida para o campo, a equipe se reuniu no escritório da Reserva Biológica do Gurupi para acertar os últimos detalhes do planejamento da expedição. Após consulta ao mapa da região do mosaico do Gurupi, que compreende a Reserva e seu entorno, a equipe foi dividida em duas, visando cobrir uma área maior e, assim, aumentar a chance de sucesso. Diego Mendes, Cesar Medolago e Carlos Martinez, acompanhados pelo auxiliar de campo Francisco Walison, mais conhecido por “Abelha”, partiram para cobrir áreas remotas da Reserva Biológica do Gurupi e região norte do mosaico. Emanuel Barreto e Flávio Ubaid seguiram rumo ao leste. Além da busca em campo, foram instaladas armadilhas fotográficas na região e aplicados questionários junto às comunidades, visando obter pistas e informações sobre a ocorrência do mutum-pinima na região.

A equipe foi acompanhada pelo cacique Pistola durante toda a expedição. Ele nos apresentou o projeto chamado “Guardiões da Floresta”. Trata-se de uma iniciativa pioneira dos índios Guajajara da Terra Indígena Caru, que tem por objetivo a proteção de suas terras contra a presença de madeireiros e caçadores. Ao todo, são quarenta índios que se revezam na nobre missão de proteger seu principal patrimônio: a floresta. Nesta localidade a equipe não obteve nenhum registro do mutum-pinima, mas encontraram o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa) e espécies raras ou ameaçadas como o jacupiranga (Penelope pileata), o jacamim-de-costas-escuras (Psophia obsura), a ararajuba (Guaruba guarouba) e o macaco-caiarara (Cebus kaapori).
Após falsos alarmes, o tempo passava e a angústia aumentava. Um fio de esperança foi renovado quando, às 6:25h, Pirahu apontou e falou: “Mytunxî, Mytunxî!!”. Dessa vez ele estava certo, era realmente o mutum-pinima. Ouviu-se o seu característico canto de alerta, logo gravado pela equipe (escute aqui). Era um macho que caminhava por trás do cipoal, porém, muito arisco, rapidamente voou para a copa de uma árvore, escondendo-se entre a folhagem. Mais ao longe uma fêmea foi avistada por Cesar Medolago. Além da gravação, uma foto foi obtida pela equipe, que a essa altura já não se continha de tamanha felicidade. E com toda razão, pois há 40 anos a ciência não documentava essa espécie na natureza.A segunda equipe foi recebida pelos caciques Irakadju, da Aldeia Turizinho, e Pirahu, da Aldeia Paracuí, ambos da etnia Kaapor, da Terra Indígena Alto Turiaçu. Após percorrer inúmeras áreas do mosaico do Gurupi, no dia 16 de novembro de 2017, guiados pelo cacique Pirahu, Diego Mendes, César Medolago e Carlos Martinez finalmente encontraram o Mytunxî (como é chamado o mutum-pinima na língua Tupi).

Além do importantíssimo registro, a equipe pôde entender melhor o habitat do mutum-pinima. Durante a expedição, muitas pistas sobre a ocorrência da espécie foram obtidas. Relatos dos indígenas sobre o mutum-pinima informando do que ele se alimenta, onde dorme, onde nidifica, período reprodutivo e outros dados foram importantes e irão auxiliar nas futuras expedições de busca. Um casamento perfeito entre conhecimento científico e conhecimento tradicional dos povos indígenas, auxiliando na conservação desta espécie.
O desmatamento ainda persiste em toda a região e é uma ameaça não apenas para o mutum como também para toda a biodiversidade local. Ao desmatamento soma-se ainda a caça, ainda comum e que continua impactando a espécie. O mutum-pinima precisa de proteção não só urgente, como também efetiva. Uma das maneiras mais eficientes e comprovadamente reconhecidas como uma salvaguarda de longo prazo é a criação em cativeiro. Os cracídeos são facilmente mantidos e reproduzem-se em cativeiro com relativa facilidade, e o Brasil, felizmente, possui criadores experientes para lidar com estas aves, ampliando as chances de sucesso. É necessário controlar ou minimizar as ameaças locais para que o manejo populacional seja efetivo. O futuro desta espécie passa necessariamente pela adoção de medidas emergenciais para a sua salvação.A ave ainda sobrevive na unidade de conservação e, provavelmente, em todo o planeta, apenas nesta localidade e terras indígenas do entorno. Isso reforça a necessidade de integração da Reserva Biológica do Gurupi com as terras indígenas circunvizinhas, para aumentar a proteção dos últimos remanescentes de floresta amazônica do estado do Maranhão. O investimento em pesquisa, educação ambiental e recuperação de habitat também precisa se intensificar, especialmente de matas ciliares e formação de corredores ecológicos para conexão das áreas protegidas. Além da criação de novas unidades de conservação na região, a fim de aumentar as áreas protegidas que possam servir de refúgio para o mutum-pinima e as demais espécies ameaçadas e endêmicas do Centro de Endemismo Belém.

 

reportagem do

http://www.oeco.org.br

About cerradania

Operário das letras, Comunicador e Idealizador da Cerradania, Palestrante,Professor. Letterman, Communicator and Idealizer of Cerradania, Speakers,Teacher.

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